Resposta rápida: As seis coisas não naturais são os seis fatores controláveis que a medicina galênica usava para manter os quatro humores, e portanto o temperamento, em equilíbrio: o ar e o ambiente, a comida e a bebida, o sono e a vigília, o movimento e o repouso, a evacuação e a repleção, e as paixões da alma. Eram o regime cotidiano que o médico ajustava à constituição de cada pessoa.
A medicina clássica não via a saúde como uma posse fixa. Via a saúde como um equilíbrio que precisava de cuidado diário, e as ferramentas desse cuidado eram as seis coisas não naturais. Os humores e o temperamento descreviam o que você é. As coisas não naturais descreviam o que você faz para manter essa natureza no seu melhor.

O Que "Não Natural" Realmente Significa
O nome soa estranho ao ouvido moderno, então vale esclarecê-lo primeiro. Os médicos galênicos dividiam o estudo do corpo em três classes. As coisas naturais eram aquilo de que o corpo é feito: os elementos, os humores, as faculdades e a constituição com que você nasce. As coisas contra a natureza eram as que se opõem à natureza: a doença, suas causas e seus efeitos. Entre essas duas ficavam as coisas não naturais. Não eram parte da sua natureza nem doenças em si. Eram os fatores externos e comportamentais que agem sobre o corpo e podem empurrá-lo para a saúde ou para a enfermidade. "Não naturais" queria dizer apenas que não faziam parte da substância do corpo. Na prática, eram a parte mais concreta do sistema, porque eram justamente a parte que a pessoa podia mudar.
Galeno e a Origem do Esquema
A ideia nasce com Galeno de Pérgamo, no segundo século. Ele reuniu a ênfase hipocrática no ar, na dieta, no exercício e no ambiente e transformou tudo isso num arcabouço prático de regime. Galeno não fixou a lista canônica de seis na forma organizada que os séculos seguintes adotaram; essa forma se cristalizou entre seus herdeiros árabes e latinos medievais. Avicena organizou boa parte do material no Cânone da Medicina, por volta de 1025, e a lista de seis virou um pilar das escolas médicas de Salerno e Montpellier. Ela reaparece em incontáveis regimes de saúde até o início da era moderna. Nicholas Culpeper e seus contemporâneos ingleses ainda trabalhavam com as mesmas seis categorias no século XVII.
A lógica é simples. Cada um dos quatro temperamentos é uma mistura própria das qualidades primárias: quente ou frio, úmido ou seco. O ar pode aquecer ou resfriar você, a comida pode umedecer ou secar, o exercício aquece, o repouso resfria, e assim por diante. O regime consistia em combinar as coisas não naturais com a constituição de cada um. Ao melancólico, frio e seco, dava-se hábitos que aquecem e umedecem. Ao colérico, quente e seco, dava-se hábitos que resfriam e umedecem. O alvo era sempre o meio equilibrado que a tradição chamava de eucrasia.
As Seis, Uma a Uma
Os autores clássicos listavam seis fatores. Às vezes dividiam ou combinavam algum deles, mas o conjunto central é estável.
- Ar e ambiente. O ar ao redor, o clima, a estação e o lugar. Era tido como o mais poderoso dos seis, porque você o respira sem parar e não tem como escapar dele.
- Comida e bebida. A dieta, entendida pelas qualidades de aquecer, resfriar, umedecer e secar de cada alimento, e não pelas calorias. Esta é a face prática da nutrição por temperamento.
- Sono e vigília. Tanto a quantidade quanto o horário. O sono era tido como umedecedor e resfriador; a vigília, como secante e aquecedora.
- Movimento e repouso. O exercício e a quietude. O movimento gera calor vital e ajuda na evacuação; o repouso resfria e conserva.
- Evacuação e repleção. O equilíbrio entre o que o corpo absorve e o que expele. Incluía tudo, da digestão às antigas práticas de purga e flebotomia, e também a plenitude em si.
- As paixões da alma. Os accidentia animae, as emoções: alegria, raiva, medo, tristeza. A raiva era lida como aquecedora; o medo e a tristeza, como resfriadores. O médico tratava a mente como parte do equilíbrio do corpo.
A Conexão com o Signo e a Estação
É aqui que o regime encontra o céu. A medicina clássica era inseparável da astrologia, e várias das coisas não naturais eram lidas diretamente pelo zodíaco. O ar e o ambiente passavam pelas estações, e cada estação carregava uma assinatura humoral ligada aos signos solares: a primavera é sanguínea e úmida, o verão colérico e quente, o outono melancólico e seco, o inverno fleumático e frio. O médico que conhecia o temperamento do paciente também lia a estação e seus signos regentes antes de ajustar o regime. Afinal, um verão quente agravava um tipo de fogo já colérico, e um inverno rigoroso aprofundava um tipo fleumático.
A evacuação carregava a regra astrológica mais forte de todas. Os médicos programavam a flebotomia e a purga pela Lua e pelo signo que ela ocupava, seguindo a doutrina do Homem Zodiacal: evitava-se cortar ou tratar a parte do corpo governada pelo signo por onde a Lua estava passando. As paixões também recebiam a cor do mapa. Uma natividade carregada de Marte inclinava para a paixão aquecedora da raiva; uma carregada de Saturno, para o peso resfriador da tristeza.
| Coisa não natural | Qualidades que movimenta | Ligação com estação / signo | O que temperava | | --- | --- | --- | --- | | Ar e ambiente | Qualquer uma, pelo clima | As quatro estações e seus signos | O humor sazonal dominante | | Comida e bebida | Aquece, resfria, umedece, seca | Dieta ajustada ao temperamento de nascimento | O humor constitucional | | Sono e vigília | O sono umedece e resfria | Timing lunar em algumas tradições | Excesso de secura ou calor | | Movimento e repouso | O movimento aquece, o repouso resfria | Signos coléricos e de fogo precisam de menos aquecimento | Frieza ou repleção | | Evacuação e repleção | Reduz o humor em excesso | Programada pela Lua e pelo Homem Zodiacal | Qualquer humor em excesso | | As paixões | A raiva aquece, a tristeza resfria | Marte aquece, Saturno resfria o humor | Desequilíbrio emocional |
Perguntas Frequentes
Por que eram chamadas de "não naturais" se importam tanto?
A palavra não significa antinatural nem artificial. Na teoria galênica, as "coisas naturais" eram a própria substância do corpo, os elementos e os humores, e as "coisas contra a natureza" eram as doenças. As coisas não naturais formavam a terceira classe: os fatores externos e comportamentais, ou seja, o ar, a dieta, o sono, o exercício, a evacuação e a emoção. Elas agem sobre o corpo sem fazer parte de sua substância. Recebiam esse nome apenas por ficarem fora da natureza do corpo, embora fossem a alavanca mais concreta que uma pessoa tinha sobre a própria saúde.
Como as seis coisas não naturais se conectam aos signos do zodíaco?
Pela estação e pela Lua. As estações carregam assinaturas humorais ligadas aos seus signos solares, então o ar e o ambiente eram lidos contra um céu de primavera, verão, outono ou inverno. O regime era ajustado a qualquer humor sazonal que pudesse agravar o temperamento da pessoa. A evacuação, sobretudo a sangria, era programada pelo signo que a Lua ocupava, segundo a doutrina do Homem Zodiacal. E as paixões recebiam a cor de planetas como Marte e Saturno no mapa natal.
Devo usar as seis coisas não naturais para cuidar da minha saúde hoje?
Elas são um arcabouço histórico e simbólico, nascido de uma medicina de outra época. Valem o estudo como história cultural e como forma de refletir sobre o ritmo da vida diária: o ar que você respira, o que come, como dorme e como se move.
Explore Seu Próprio Temperamento
Para ver o equilíbrio elemental e planetário de onde o regime clássico partia, monte um mapa natal gratuito ou leia sua constituição num relatório de saúde, que fala na linguagem do temperamento clássico e não da adivinhação. Para mais técnica tradicional explicada de forma simples, navegue pelo blog.
